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quinta-feira, 8 de março de 2012

Crônicas Cinzentas - Fagorn, o Paladino [Parte 03]



Continuação...

Em seus sonhos, Fagorn vivia aventuras em terras distantes. Cavalgava um grande garanhão, como aquele que o estranho visitante montava. Era imponente e respeitado, com armadura reluzente e espada embainhada. Cruzava os campos verdejantes do oeste, cujas histórias de seus mestres ilustravam como os mais verdes da terra. O vento, macio e agradável, acariciava seu rosto com uma leve brisa. O sol era ameno, como em uma tarde de primavera.

Ao longe, ele avistara uma grande árvore com frutas por toda sua extensão. Não sabia que tipo de frutas era, mas sua beleza esplendorosa garantia um sabor magnífico, antes mesmo que pudesse vê-las de perto.

Observou a árvore por alguns instantes de longe, mas logo, quase que instintivamente, cavalgou mais rápido na direção dela, para que pudesse vislumbrar melhor sua imponência. A imagem do firme tronco e de suas folhas verdes e largas, crescia em sua frente a cada galope e enchia seus olhos de beleza e seu coração de esperança. Aquilo era mais que somente uma árvore em seu íntimo, representava suas raízes, todo seu aprendizado. E lá estava Fagorn, tranquilo e sereno.

Subitamente uma sensação diferente toma sua atenção de assalto. O cavalo interrompe seu caminho e hesita por um instante. Os olhos do aprendiz procuram no céu a explicação para aquele sentimento de aflição. E sem demora, uma bola de fogo de dimensões titânicas corta o céu como um meteoro incandescente, em uma velocidade inacreditável, deixando um rastro de fumaça que manchava a imensidão azul.

De forma abrupta e violenta, a grande bola de fogo acerta a magnífica árvore causando uma grande explosão. O impacto fizera Fagorn e seu cavalo tombarem em um baque súbito no chão estremecido. Um cogumelo de fumaça e cinzas brotou de onde antes apenas a beleza daquela grande árvore podia ser vista. A imagem era tão pavorosa que o aprendiz se negou a olhar até entender que era preciso.

A fumaça trouxe com ela o odor da destruição e uma chuva de cinzas, pedaços de madeira e folhas queimadas. Em poucos segundos, todo aquele esplendor deu lugar a um mundo cinza e quente. Fagorn não podia ver direito o que havia acontecido então, movido por uma mistura de medo e indignação, levantou-se tentou avançar. Não sabia o que podia ou precisava fazer, mas sabia que devia fazer.

Em poucos segundos e alguns passos a frente, pode avistar a mais tenebrosa das imagens que teria visto até então. A esplendorosa árvore que representava o que ele conhecia e acreditava estava partida ao meio e tomada pelas chamas. Labaredas gigantescas cobriam até o ponto mais alto dos galhos, transformando aquilo em uma fogueira gigante.

Imóvel, o aprendiz observava tudo com um nó na garganta. Logo, percebeu que além da aflição, a fumaça era densa demais ali e aquilo o estava sufocando. Mal podia respirar quando se deu conta que o fogo também avançava sobre ele e o calor já estava quase insuportável. Antes que pudesse fugir, uma enxurrada de sentimentos o derrubou, deixando-o de joelhos, indefeso e impotente. Tentou se levantar, mas não pode. Estava tonto pelo calor que aumentava cada vez mais e sem fôlego, pela fumaça e cinzas que inspirava e já faziam seu nariz sangrar.

No instante final, quando tudo parecia perdido e a imagem que lhe restara era do fogo consumindo tudo o que tinha, um novo estrondo e um impacto em seu ombro o despertaram. Finalmente, o aprendiz fora liberto daquele terrível pesadelo, tão real que ainda podia sentir o forte calor e o cheiro das cinzas.

- Vamos garoto! Não há muito tempo.

A voz grave e rouca, desconhecida por Fagorn o fez saltar e cair sentado do monte de feno onde havia adormecido. Seus olhos custaram a acreditar no que via. O cavaleiro que tivera resgatado no inicio da noite estava ali, estava de pé a sua frente. Vestindo aquela poderosa armadura, com semblante firme, porém aflito.

- Melhor se apressar se quiser viver!

Havia muitas perguntas que Fagorn gostaria de fazer à aquele guerreiro, que fitava com admiração, mas todas foram rechaçadas após sua última frase.

O que ele quer dizer com...


Seu raciocínio não pode ser concluído devido um ataque de tosse pelo que foi acometido. O odor de cinzas era predominante e havia fumaça por todo o celeiro. Tudo começava a fazer sentido na jovem mente do aprendiz.

- O que? O celeiro está em chamas?

Havia um incêndio no celeiro, claro. Isso explicaria todo aquele sentimento em seu sonho. Uma reação inconsciente a um problema real. Aquilo o tranquilizou quando ao sonho, mas o pôs de pé, assustado e alerta. Afinal, tinha que ser rápido para conseguir conter as chamas e evitar qualquer tipo de estrago. Como poderia explicar algo assim aos mestres do monastério?

O cavaleiro se afastou enquanto Fagorn correu até a porta celeiro. Porém, a pouca luz o fez tropeçar em algo e cair, chocando o rosto ao chão. Enquanto ainda esbravejava notou que, o que o derrubou foi um corpo inerte no chão. A silhueta de um homem de bruços ali provocou um impacto assustador e o fez rastejas para atrás, onde havia outros dois corpos. Com certeza, uma experiência muito aterrorizante para alguém tão jovem. O terror do menino foi ainda maior quando pode identificar que um deles estava decapitado.

Na verdade, os corpos tinha membros faltando. Braços e pernas estavam dilacerados e espalhados pelo lugar. Olhando pelo local, ainda muito nervoso, Fagorn pode identificar cinco corpos ao todo. Assustado e acuado em um canto do celeiro, o aprendiz não consegui se mover.

- Venha comigo! Vamos...

A voz rouca novamente desperta Fagorn, desta vez do choque causando pelo espanto daqueles cadáveres. O cavaleiro, com uma das mãos, ergueu o jovem aprendiz, tomando pelo braço o colocando de pé. Apesar de não haver nenhum foco de chamas ali dentro, existia muita fumaça uma luz forte era emanada do lado de fora.

O celeiro não pegou fogo... Alguém tentou incendiá-lo.


Em meio a seus devaneios, Fagorn notou que o cavaleiro estava alerta, de espada em punho. A lâmina possuía as marcas do combate que houvera ali. Estava coberta de sangue, possivelmente dos corpos que estavam pelo chão. Caminharam juntos, rapidamente até uma porta lateral que dava acesso a um lago, onde havia um pequeno bote com remos e posteriormente a um bosque.

- Garoto me ouça. Quando eu der o sinal, você corre até aquele bote, sem olhar para trás. Reme até o outro lado da margem, corra por uma hora e depois se esconda.

Por um instante, o aprendiz desconfiou do cavaleiro e o desafiou.

- Não, precisamos ir ao mosteiro, lá estaremos seguros. Meus mestres vão nos ajudar.

O cavaleiro dispara um olhar firme, porém piedoso para com o aprendiz. Nenhuma palavra fora proferida, mas era como se uma cruel realidade fosse revelada da forma mais cruel possível.

Foi inútil para o cavaleiro, tentar conter Fagorn, que passou por ele abriu as portas e viu a árvore de sua vida em chamas, mas dessa vez não era um sonho. O monastério estava tomado por chamas intensas e gigantescas labaredas, que se erguiam muito acima do telhado do lugar. Uma cena terrível. As paredes ardiam como em uma grande fornalha.



Nesse momento, Fagorn se ajoelhou e chorou. Como nunca tivera feito em toda sua vida e nunca mais viria a fazer. Nascia ali, em sua maior dor, o sentimento que guiaria suas ações daquele instante até o final de sua vida.

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Este é o penúltimo capitulo que conta a origem do Paladino Fagorn, um dos heróis das Crônicas Cinzentas.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Crônicas Cinzentas - Fagorn, o Paladino [Parte 02]



Continuação...

Em uma noite, fria a chuvosa, Fagorn estava no celeiro, onde passava sempre muito tempo, sonhando com suas aventuras pelo mundo. Imaginava uma grande batalha nos confins da terra cinzenta, onde defendia a honra dos oprimidos com sua espada.

Enquanto disputava a peleja com seus inimigos imaginários, um estrondo o faz cair de um cavalete onde estava apoiado. Sua atenção foi direcionada no mesmo instante para a porta, mas manteve-se imóvel, atrás do monte de feno, onde caíra. Olhando fixamente para porta, levou um susto com uma nova batida que ocorrera. Claramente eram investidas contra a grande porta de carvalho, maciça, que mantinha o frio, a chuva e seja lá quem estivera tentando entrar, do lado de fora. Ainda imóvel, o jovem aprendiz estava atento.

Um terceiro e último estrondo, ainda mais forte que os dois primeiros ocorreram. Desta vez, fora o suficiente para arrebentar a tranca que segurava a porta. Um firme caibro que ficara disposto na horizontal e mantinha a entrada selada. O força foi tamanha que o fez estilhaçar em 3 pedaços.

Fagorn prendia a respiração, num misto de medo e excitação, com o que estava prestes a ocorrer. A fraca iluminação do celeiro permitia ver uma grande silhueta à porta, que lentamente adentrava ao lugar. Um cavalo branco, ornado com armaduras de guerra, douradas e reluzentes, marchava celeiro à dentro. Um poderoso garanhão, como o jovem jamais avistara, forte e imponente, trilhou seu caminho até aproximar-se de um monte de feno. Ali, ajoelhou e em seguida se deitou.

Os olhos de Fagorn moveram-se pairando sobre cela do belo animal, onde estava desfalecido, um cavaleiro. Um grande guerreiro, usando uma armadura prateada e reluzente, porém manchada do que parecia ser sangue deixava, lentamente, seu corpo cair da cela, deitando-se sobre o feno. Em seguida, o sagaz equino, levantou-se e foi até a grande porta, tentando encosta-la, possivelmente pra evitar o frio de entrar.

De longe, o aprendiz apenas observava tudo, sem mover um único músculo. Aquilo tudo estava muito além do que poderia compreender e isso o deixava ainda mais curioso, suprimindo seu medo. Então, num ato de coragem, ou de insanidade, deu um salto, pondo-se de pé e correu até a porta. Fora em direção a outro caibro, disposto em uma estante lateral, que pudesse substituir aquele que estava partido, para conseguir fechar a porta.

Assim que notou Fagorn, o poderoso garanhão virou-se para ele, preparando uma investida. Só então o aprendiz parou e pensou na possível estupidez que fizera, expondo-se daquela forma. Agora, estava frente a frente com o mais belo, porém amedrontador cavalo que já conhecera. Não haveria tempo para fugir ou tentar uma manobra de esquiva, seria atingido em cheio e sem chances para defesa.

Sem muitas alternativas, o jovem encarou o animal e ele fizera o mesmo, mantiveram-se assim por alguns instantes até que o cavalo de guerra afastou-se, sem qualquer reação ofensiva. Por mais alguns segundos o aprendiz permaneceu estagnado, sem respirar, até que uma forte e fria rajada de vento e chuva adentrou ao celeiro, açoitando seu rosto e libertando-o do transe. Só então pode concluir o que quisera, fechando novamente a porta e selando-a com o novo caibro.

Quando seu olhar se voltou ao cavalo novamente, ele estava deitado ao lado daquele que o montara. Os olhos do animal se mantinham em Fagorn, porém não mais com semblante de batalha e sim de curiosidade. Além de magnífico, o equino fora brilhantemente treinado, possivelmente por aquele que ali estava desfalecido. E como se estive diante de sua própria cria, vigiava com todo zelo seu cavaleiro.

Lentamente, o jovem aprendiz caminhou até onde estava cavaleiro e seu cavalo. Este segundo continuava acompanhando-o com o olhar, sem nenhuma reação, enquanto Fagorn se aproximava. Lá chegando, pode vislumbrar o grande cavaleiro, a grandiosidade de sua armadura e a gravidade de seus ferimentos.

A armadura prateada, reluzente, que podia refletir o movimento de cada chama acessa nas tochas daquele lugar, estava manchada pelo sangue que advinha de um corte profundo, próximo a axila esquerda. O espaço vulnerável da armadura, onde não havia placas, fora perfurado por um golpe poderoso de lança ou de uma grande espada. Os hematomas no rosto e as muitas marcas de golpes no restante da armadura, contavam a história de uma batalha travada, quase até a morte, que deixou o guerreiro naquele estado de quase morte.

Movido por sua compaixão, Fagorn afastou-se do cavaleiro e correu até um velho armário de madeira, mantido no celeiro, onde ficavam algumas mantas e itens de primeiros socorros. Quase tudo ali é para uso nos animais que serviam nos trabalhos do campo, mesmo assim podiam ser úteis, nas mãos certas. Mesmo muito jovem, o aprendiz tinha habilidade para fazer curativos ou medicar pequenos ferimentos. Passara muitos dias ajudando o curandeiro local e fazia isso de bom grado. Então, após apanhar alguns itens que julgou útil, correu novamente até o guerreiro caído.

Com muita dificuldade, Fagorn removera a parte superior da armadura do guerreiro e o que pode ver foi um corpo marcado pela dor e pelo sofrimento. Não havia um único local sem uma cicatriz ou um hematoma. Seja lá o que aquele guerreiro tivesse feito, deixou muitas pessoas descontentes.

O corte, próximo a áxila direita, tinha a largura de quatro dedos e havia rasgado a carne e os músculos do local. O aprendiz limpou a ferida com um mistura de água com um liquido de cheiro forte e que provocava certa ardência, porém excelente para remover todo tipo de sujeira e impurezas. Esse processo provocou alguns gemidos do guerreiro.

... ao menos está vivo...


Em seguida, aplicou uma pasta de ervas, usada em ferimentos de cavalos para conter a infecção e ajudar na cicatrização. Nos animais, o efeito era sempre muito positivo. Por último, cobriu o cavaleiro com uma grande manta, deixando apenas cabeça e o local o ferimento de fora, assim manteria seu corpo aquecido e a ferida bem ventilada.

Quando Fagorn terminou, com as mãos e roupas bem sujas de sangue, pode ouvir um murmúrio vindo do guerreiro, que mal conseguia abrir os olhos. Dentre as palavras proferidas e forma trêmula e rouca, pode discernir.

– Obrigado, meu filho...


Aquele singelo agradecimento, acalmou a alma do jovem aprendiz, que se levantou e foi se lavar e um balde que já transbordava de água da chuva, aparada de uma goteira. Depois de remover o sangue de suas mãos, subiu até a parte mais alta do celeiro, levando consigo uma manta. Resolveu dormir ali mesmo, para pela manhã, avisar um de seus mestres sobre o que havia acontecido. A excitação pelo que aconteceu e a ansiedade pelo que viria com o amanhecer o manteve acordado por mais algum tempo, até que seu sono, embalado pelo barulho da chuva venceu o Fagorn finalmente adormeceu.

...

Nota do autor:
Acredito que a apresentação de personagens de uma aventura, vai além sua origem e seus atributos físicos. Gosto de embasar seu comportamento e o modo como é visto pela sociedade que o cerca com acontecimentos de sua vida. Isso, em minha opinião, aproxima o leitor de cada um dos personagens aumenta seu envolvimento com a aventura.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Crônicas Cinzentas - Fagorn, o Paladino [Parte 01]

A história desse homem começa a aproximadamente cem anos atrás, quando ele ainda garoto, foi deixado às portas do Monastério das Almas, nos campos de sementes Vale do Sol. Um vale situado aos pés de uma colina conhecida Sussurro do Vento, ao sul da Floresta dos Sonhos Perdidos. No extremo sul do reino dos homens, a muitos dias de viagem daqui.

Os clérigos que viviam no monastério sempre foram bons homens, devotos dos deuses da bondade, como Yon e da justiça e coragem, como Heironeous. E estes educavam os jovens, orientando-os no caminho da luz. Com estes conceitos cresceu Fagorn Holypride ou "Orgulho Santo".

Hoje é conhecido como "O Cavaleiro da Justiça", "Defensor dos injustiçados", Paladino devoto de Heironeous, munido de uma "fé inabalável", seu nome ecoa pelos quatro cantos do reino do Rocha Branca e em toda a Terra Cinzenta ele é reconhecido... mas nem sempre foi assim. Em seu caminho, muitas vezes sua fé foi testada e por muitas vezes ele fraquejou. Era muito impulsivo e ingênuo. Os clérigos haviam o preparado muito bem seu espírito, os monges, fortalecido seu corpo, mas sua mente ainda era fraca, subjugada frente aos conhecimentos mundanos.

Fagorn sempre fora fisicamente muito forte. Alguns clérigos diziam que ele era filho de cavaleiros do leste, outros que são pai era um gigante do norte e sua mãe uma deusa. Apesar disso, a verdade sobre sua origem sempre fora um mistério, mas era visível que seus pais não eram daquela região, eles eram diferentes. Sua força, seu vigor e sua constituição física eram incríveis.

Enquanto ainda era apenas um aprendiz, ajudava nos campos de semente. Trabalhava durante todo o dia no cultivo da terra. Arando, plantando, colhendo, preparando o solo. Monges e clérigos acreditavam em uma ligação da natureza com suas divindades. Por isso, mantinham todo o meio ambiente ao seu redor em equilíbrio e harmonia. Tinham muito cuidado para não deixar que o cultivo exaurisse as terras. O braço forte de Fagorn ajudava com esses trabalhos.

O limite norte dos campos ficava próximo a um caminho. Uma rota de mercadores que cruzavam os reinos levando seus produtos. Muitos deles, compravam grãos no monastério para revender em outros lugares. Assim, ajudavam os que ali viviam, com mantimentos, roupas e demais coisas, e levavam sementes saudáveis, de todos os tipos, a diversos locais do mundo. Essa disseminação, mesmo que por um certo preço, era algo que os monges apreciavam.

Os monges e clérigos do Monastério das Almas orgulhavam-se muito do caminho que escolheram e instruíam seu pupilos a seguirem fazerem o mesmo. Assim, a linhagem de monges e de clérigos advindos dali se mantinha forte. Fagorn seria um excelente monge, devido sua força ou um abençoado clérigo, devido sua devoção, mas em seu interior, sabia que nenhum dos dois caminhos o realizava. Isso o frustrava e a seus mentores, que tinham medo de "perde-lo para mundo".

Certa vez, uma caravana de guerreiros que marchavam por aquelas terras, parou no monastério para abastecer seu estoque de água e ração. Enquanto a maioria se abastecia ou descansava, alguns faziam uma especie de jogo. Uma disputa de perícia com a espada, similar a esgrima. Fagorn, que na época tinha onze anos de idade, mas um corpanzil de quinze, observava fascinado as espadas girando no ar e se encontrando e movimentos perfeitos e sincronizados. Ele nunca tinha visto nada parecido.



Algumas semanas se passaram, depois que os guerreiros deixaram o lugar, mas todos os dias Fagorn comentava sobre o acontecido. Qualquer galho que encontrava pelo caminho se tornava uma espada, em sua imaginação e essa passou a ser sua principal diversão. Por muitas vezes ele fora advertido que guerreiros não tinham nenhum tipo de devoção ou crença e que faziam o que era preciso por dinheiro ou para seguir ordens. Aquilo sempre o deixava muito triste, contudo em seu íntimo, ele já sabia que seu destino estava no fio da espada, literalmente.

Todas as noites, Fagorn se escondia no celeiro e vivia suas aventuras. Lutava com suas espada de madeira, cujas formas havia delineado em um cabo de foice partido. Planejava o dia que deixaria o monastério e seguiria seu caminho e suas próprias aventuras. Então vinha o sentimento de culpa. Lembrava do que seus mestres falavam sobre os guerreiros e seus atos. Ao final, ajoelhava-se e pedia iluminação divina, depois guardava sua "espada" e ia dormir.

Naquele tempo, a ordem dos paladinos já não existia mais. Os mais jovens jamais tinham ouvido falar de tais homens e os mais antigos, os conheciam apenas em histórias contadas por seus pais ou mestres, quando crianças. Dizem que muitos paladinos foram corrompidos pelo "mal do mundo" outros taxados como fanáticos extremos e todos (ou quase todos) haviam sido expulsos das terras dos homens até virarem lendas. Por quase trezentos anos não se via ou ouvia falar de um homem paladino andando por essas terras. Só que isso estava pra mudar.

Continua...

sábado, 31 de dezembro de 2011

Crônicas Cinzentas - Gwain, o Ranger Elfo [Parte Final]

Continuação...

Gwain passou a viver em florestas ali e acolá.

Não tinha essa pretensão, mas acabou se tornando uma espécie de guardião da natureza. Ao mesmo tempo em que o “caçador” protegia seus vizinhos, observava os intrusos humanos. Seus hábitos, suas manias, suas habilidades e fraquezas. Se o elfo queria vencer aqueles que destruíram tudo o que conhecia, precisava saber como.

Mais de uma vez, Gwain afugentou grupos de “ladrões de pele” das florestas por onde passava. Com isso, além de inimigos, fez diversas vítimas, sem guardar qualquer rancor. A frieza com que fora agraciado, possibilitou estudar a anatomia de suas presas.

Depois de algum tempo, o elfo sabia tudo que precisava sobre a natureza e a anatomia humana, mas movido pela curiosidade, queria mais. Começou a frequentar pequenas vilas, disfarçado. Onde entendeu que apesar do seu ódio pela raça, nem todos mereciam a ponta de sua flecha no peito.
Era difícil saber que era bom, mas não tão complicado assim decernir quem era mal. Os opressores ou “valentões” tinham hábitos comuns e andavam em grupo. Na maioria das vezes seguindo ordens de alguém muito pior, mas para o elfo, isso não os livrava da responsabilidade e da punição imposta pelo caçador.

Movido por um sentimento de justiça, alimentado por sua sede de vingança, o Ranger Elfo tornou os humanos sua principal presa e assim passou a caçar todos aqueles que ele julgava vis e maldosos. Passando a frequentar vilarejos humanos durante a noite. Dando cabo de ladrões, assassinos e valentões. Uma espécie de justiceiro, mas seu intuito não era ajudar os homens bons, isso sequer passava por sua cabeça, seu real motivo era o de encontrar seu único e verdadeiro alvo. Aquele que o privou de sua família.



Em foi em uma dessas noites, em que o elfo, espreitando um grupo suspeito, após ouvi-los planejando a captura e morte de alguém, adentrou a taverna e presenciou uma cena de agressão a “um certo bardo” que conhecemos.

A agressão a alguém notoriamente mais fraco não no impeliria a agir na frente de todos, revelando sua natureza “diferente”. Ele esperaria a confusão acabar para depois abater os agressores, era um caçador muito inteligente e metódico.

Contudo, ao ouvir a palavra “mestiço” e ver que o alvo da agressão era também uma igual ou uma meia-irmã, a cena do massacre em sua vila veio em sua mente junto de uma enxurrada de emoções e por um segundo removeu toda sua serenidade. Segundo esse o suficiente para sacar seu arco, aprontando-o com uma flecha e disparando em um tiro certeiro.

Quando voltou a si, uma nova flecha já estava pronta para disparar novamente. Por essa noite, os homens que destruíram sua vila, seria aqueles que estavam a sua frente.

- Acho que sou eu que vocês estão procurando!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Crônicas Cinzentas - Gwain, o Ranger Elfo [Parte 01]

Observação importante: Antes que atirem a primeira pedra, peço desculpas pela demora do post. Alguns contra-tempos profissionais necessitavam muita da minha atenção.
E o porque de eu não ter finalizado a aventura da “Taverna do Tronco Rubro”, também tem explicação. Na verdade, decidi explicar um pouco sobre o novo personagem que inseri, antes de postar a parte final. O que não esperava é que a intro do elfo ocupasse mais de um post, mas pela qualidade do texto, acredito que fica melhor assim.



Gwain, o Ranger Elfo

O elfo caminhara por semanas, sem parar para comer ou descansar. Em sua mente a lembrança da vilarejo em chamas e do sangue de seus amigos e irmãos só não era mais nítida do que o semblante do assassino que promoveu aquele massacre. O feiticeiro humano, cujo nome não era conhecido pelo elfo estava com seus dias contados. O ranger não sabia onde ou como enfrentaria e venceria, se fosse realmente possível vencer, aquele poderoso conhecedor da arte arcana, mas nada tiraria seu foco. Seu destino estava traçado.

Gwain, era o nome do elfo ranger descendente dos Anciões da Floresta, os mais antigos elfos da parte oeste do Grande Mar. Viveu em uma vila elfica conhecida com “Mae Govannen” às margens do grande rio Anguis. O vilarejo era quase que exclusivamente élfico, apesar de mercadores gnomos e meio-elfos aparecerem com certa frequência. Ele sempre fora um aluno aplicado e um amigo fiél.

Quisera ele estar na vila quando tudo começou. Foi tão rápido que nem mesmo os elfos mais experientes e sábios puderam prever. O ataque devastador não deixou sobreviventes, a não ser o ranger que havia saído para cumprir uma aposta que fizera com seu irmão Deowain. Uma brincadeira boba fora a última conversa que teve com ele. Aquelas lembranças provocaram as primeiras lágrimas da vida do jovem elfo, que sequer conhecia um sentimento tão forte e estranho para o elfos, mas tão comum entre os humanos.

Pôs-se a caminhar desde aquele dia, com todo ódio que poderia ter, buscando vingança. Quando finalmente parou, totalmente esgotado, desabou. Estava tão exausto que seu corpo não suportou e o manteve em estado de alfa por quase dois dias. Ali, junto da natureza em meio às animais e plantas, que recuperavam suas energias e sua sanidade para continuar a jornada. Precisava descansar e manter a calma, por mais difícil que aquilo poderia parecer.

Enquanto meditava seu corpo, sua mente e seu espírito entravam em sintonia. Um equilíbrio comum apenas nos mais anciões era alcançado por Gwain. Ao despertar, algo havia mudado no elfo. Aquele sentimento incontrolável de indignação, raiva e culpa, deu lugar a uma expressão serena, adivinda de um caçador agora frio e metódico. Nada que ocorrera em seu passado o abalaria e isso faria os assassinos de seus parentes e amigos pagarem pelo que fizeram. Ele os acharia, nem que fosse preciso matar todos os humanos que visse pela frente.

[Na semana que vem, postarei a segunda parte da saga do elfo e em seguida, o desfecho da aventura na Taverna do Tronco Rubro]

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Crônica Cinzenta - Nina, a Meio-elfo

Voltamos a falar de nosso amigo bardo. Onde estávamos mesmo? Ah sim! Na noite em que ele a levou para a estalagem consigo. Na noite em que adormeceu sentado em uma cadeira velha de carvalho, olhando a bela frágil mulher na cama, pensando em tudo que tinha acontecido e no que tinha feito, mas sem imaginar o que ainda viria.

Quando acordou estava deitado naquela mesma cama, sozinho e coberto por uma pesada colcha de retalhos e penas. Muito confortável. Por alguns segundos, enquanto se espreguiçava, sequer lembrou-se do que ocorrera estava com a mente limpa e descansada. No instante seguinte, um turbilhão de lembranças e emoções da última noite o atordoaram, no momento em que vislumbrou aquela que viria a ser sua mais fiel companheira.

Eles se olharam por algum tempo, até que as primeiras palavras foram ditas. Um leve sorriso foi o que impulsionou as palavras de Dudu, trêmulas devido ao nervosismo.

- B-bom d-dia.

Mesmo para o Bardo que era acostumado com a atenção destinada a si e os olhares do público sobre ele, sua voz fraquejou por um instante. Porém, aquelas palavras iniciais, puras e sinceras despertaram um sorriso ainda mais confiante da jovem para com ele. Dudu emanava uma aura de bondade e sempre foi muito carismático e querido por onde passou, isso inspirava confiança, mesmo antes de conhecê-lo.

Poderia narrar aqui cada frase dita durante toda a conversa, ainda assim não compreenderiam o que foi falado. Assim como poderia descrever as emoções de cada um para com o outro, mas acredito que apenas estando lá, seria possível compreender o que isso representava. Sendo assim, me limito a dizer que um sentimento de confiança perpetuou a amizade destes dois, naquele momento e pelo resto de suas vidas. NINA, era o nome da meio-elfo que passou a acompanhar Dudu a todo lugar, ficando junto dele a partir daquele dia.

Isso mesmo, uma MEIO-ELFO, naquelas terras onde os mestiços sempre foram caçados. Ela não tinha lembrança alguma de onde viera ou como chegou ali. Lembrava apenas de seu nome, ou pelo menos de como a chamavam, e de que, nas últimas semanas, conheceu um mundo violento e preconceituoso. Dudu foi o “ponto fora da curva” na vida dela. Jovem, de corpo esguio e curvas provocantes, que por vezes atraiam a atenção do Bardo mais do que seu cabelo de cor peculiar, seus olhos misteriosos ou suas orelhas protuberantes, a marca registrada de sua raça.

Mesmo sem qualquer memória significativa de sua vida, a meia-elfo parecia conhecer muitas coisas, algumas de forma quase instintiva. Os conhecimentos arcanos que possuía, inicialmente impressionaram Dudu, que viria a descobrir poucos dias depois, que sua amiga era uma feiticeira. Isso explicaria muito do que viu a respeito de Nina.

Passado aquele turbilhão de emoções, o bardo avistou um problema em ter a meio-elfo como sua acompanhante. Como o “ganha-pão” dele era basicamente se apresentar para outras pessoas e Nina ainda estava um pouco insegura em ficar sozinha, precisava pensar em algo para leva-la consigo. Inicialmente o capuz, esse seria indispensável a qualquer momento que a meio-elfo deixasse a estalagem, mas só isso não seria o suficiente para ela o acompanhar nas tavernas. Contudo, foi sua música favorita quem solucionou o problema.

Enquanto tocava sua flauta e pensava sobre o que faria a jovem meio-elfo começou a dançar. Primeiro de forma tímida, mas não por muito tempo. Seu desempenho fora ímpar, com movimentos leves e sensuais. Uma dança natural, misteriosa e provocante, seguindo o ritmo tocado pelo bardo que ficou hipnotizado, até ter a sua epifania. A partir desse dia, Nina passou a ser a dançarina ruiva de Dudu, o Bardo.




Suas apresentações a partir deste dia lhe trariam mais fama e algum dinheiro. A dançarina completava as excelentes performances de Dudu e era algo diferente. Porém, aqueles que perseguiam a moça não haviam desistido e não demorariam a encontra-la daquele jeito, mas essa já é outra história, que contarei em breve.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Crônicas Cinzentas - O Bardo [Parte Final]

Naquela noite, após uma apresentação digna de ser vista por reis, Dudu caminhava apressado pelas ruelas de um vilarejo próximo a Pedra Cortada, quando um grito feminino e agudo pode ser ouvido, vindo um beco escuro. Como nunca fora um herói por natureza, aliás alguns o apontariam, antes daquele dia, como desprovido de qualquer coragem, seu instinto o impelia em correr o mais rápido possível. Talvez procurasse ajuda posteriormente, mas primeiro precisava salvar a própria pele.

Não tenha este como um pensamento mesquinho. É preciso estar a um passo do inimigo para desejar estar o mais longe dele e somente diante o do perigo é possível entender esse tipo de reação. Contudo, naquele dia, o instinto de sobrevivência deu lugar a outro tipo de sentimento. Enquanto passava pela entrado do beco, pode ver a doce e ruiva donzela, quase que de relance, tentando se levantar do chão, quando era golpeada novamente por um guarda e caia desacordada. Aquela visão de pouco mais de dois segundos, foi o suficiente para fazê-lo parar de forma abrupta.

Queria correr, sair dali o mais rápido possível. Pensou que o medo intenso o teria deixado paralisado, afinal não seria a primeira vez, mas não. Desta vez era um sentimento nobre que o instigava a fazer algo. E então assim, sem pensar, tomado por um impulso frenético, de um sentimento totalmente novo, giro sobre os pés, dando meia volta, e partiu, sem qualquer tipo de controle raciocínio lógico, em direção do beco e em seguida do guarda que golpeou a pobre dama.

Visto de longe, a cena seria no mínimo curiosa, de um homem enlouquecido, sem grandes atribuições físicas, correndo em direção de um soldado armado começava a arrastar o corpo inerte de uma mulher.
Cheio de coragem, algo que intitularia como “sangue nos olhos” e muita vontade, além de nenhum bom senso, Dudu sequer conseguiu ver o que acontecera, parando somente ao esbarrar em seu alvo e cair no chão a pouco mais de dois metros dele. Por alguns segundos, atordoado, apenas pode ouvir alguém esbravejando. Quando conseguiu enxergar novamente, vira o guarda que esbarra levando-se, com a ajuda de um companheiro. Sim meu amigo, havia dois guardas ali e com olhares nada amistosos voltados para o bardo.

O turbilhão de ideias, envolvidas em um sentimento de pânico quase incontrolável, tomavam conta do artista da flauta doce, enquanto observava os guardas, já com armas em punho, vindo em sua direção. Em uma fração de segundo, por puro instinto, lembrou-se de um truque que aprendera logo que chegou ao reino da Rocha Branca. Consistia basicamente em iludir seus agressores com uma espécie de som fantasmagórico, iludindo suas mentes com algo que não existia. Assim sendo, de fora do beco, vozes foram ouvidas:

- Vamos homens, Dudu deve estar por aqui!

Um eco que simulava uma multidão acompanhou a frase. Era como se pelo menos vinte pessoas estivessem vindo. Estalidos de metal e armas também puderam ser ouvidos, então seriam guerreiros armados. A voz trêmula e amedrontada do bardo, respondera com um pedido que fora convincente.

- Aqui amigos. Estou aqui nesse beco. Ajudem-me.

Antes que pudesse ver qualquer coisa, um dos guardas virou-se e pôs-se a correr. Com certeza o que estavam fazendo ali não era licito, então não seria nada bom se o pegasse. O outro, entretanto parecia desconfiado e mesmo com o truque tendo seu efeito, partiu em uma investida, desferindo um potente golpe de espada contra Dudu.
O bardo virava-se tentando de forma infantil, proteger-se com as mãos nuas. Já podia sentir a dor da lâmina, enquanto essa rasgaria seu pescoço, em um movimento bruto e sem piedade. Porém um brilho forte como o de uma chama branca foi tudo que vira e o sentimento que esperava de dor fora frustrado.

Depois de alguns segundos, quando notou que não foi atingido, espiou por entre os dedos e pode ver o guarda caído, com algumas marcas avermelhadas próximo ao queixo. Seu olhar, por um instante voltou a mulher dos cabelos de fogo, que estava próxima a ela. Ela estava de olhos abertos, com uma das mãos apontadas para aquele guarda, como um último sinal de esforço, antes de desfalecer novamente.

Sem entender o que havia acontecido e consciente de que ainda estava vivo, porém nada seguro, Dudu levantou-se, sacodindo a terra de suas roupas e quase que por instinto, apanhando a mulher e a colocando apoiada em seus ombros. Na verdade, inicialmente tentou carrega-la, mas o uso na flauta não havia lhe dado muitos músculos e por isso não foi capaz.
Já estava amanhecendo, por isso o músico se apressou, andando pelos cantos das ruelas ainda sem praticamente nenhuma alma circulando, até chegar à estalagem onde passaria a noite.

- Ela bebeu demais.

Estas foram as palavras do bardo para a dona da estalagem, quem sem olhar direto para ele, como se aquilo fosse comum entre os bardos, respondeu enquanto o levava até o quarto.

- Certo, apenas evite fazer muito barulho.

Com um sorriso amarelo e com as bochechas coradas o bardo adentrou a quarto e colocou a mulher na cama. Os olhos deles, mesmo sem perceber percorreram toda a mulher, mesmo sem querer. Ela tinha um tipo mais esguio, com o rosto um pouco mais fino.

- Meu Deus... Um Elfo? Quer dizer, uma Elfa, sei lá.

A frase escapou pelos lábios de Dudu, quando conseguiu prestar atenção às orelhas protuberantes daquela mulher. Que na verdade, não eram assim tão protuberantes, quanto de um elfo que conhecera em outro vilarejo mais ao sul. Ainda assim, aquilo o manteve acordado por mais quase por varias, até que o cansaço da viajem e do longo tempo sem dormir o venceram e ele dormiu sentado, à beira da cama.

Crônicas Cinzentas - O Bardo [Parte 01]

Histórias sobre heróis das Terras Cinzentas? Poderia contar-lhe várias.

Sobre os bravos caçadores de Orcs do Vale do Medo, sobre os antigos e temidos Cavaleiros da Noite do reino da Rocha Branca, sobre os Elfos Corredores, das Florestas do Leste. Diziam que eles eram tão velozes quanto o mais rápido cavalo dos Andarilhos da Areia. Os mesmo andarilhos que dominaram os Gigantes de Sal nas Terras Áridas. Histórias sobre guerreiros anões do norte, Caçadores de Dragões ou os grandes Feiticeiros de Azora, detentores dos conhecimentos do mundo e de toda sua magia.

Porém, se quiser ouvir uma história realmente incrível, ela começa com a mais improvável figura que você pode imaginar. Alguém como eu, que junto de seus amigos e quase que sem querer, foi protagonista de uma das maiores aventuras que conheço.

Sim, estou falando de um bardo. Talvez do mais estranho de todos os Bardos. Mas essa é uma longa história, quer mesmo que eu conte? Possivelmente não terminarei hoje. Terás paciência de me ouvir durante todo esse tempo? Certo, então vamos lá... Adoro contar uma boa história a bons ouvintes.

O nome deste, no mínimo peculiar, Bardo é Dudu. Na verdade, acredito que esse não é seu nome verdadeiro, mas assim que ele era conhecido. E se acha esse nome esquisito, tinha que ouvir de onde ele, Dudu, dizia que vinha. Descrevia tudo como enorme maestria. Itens maravilhosos e lugares inacreditáveis. Lugar que, passou a chamar somente de “sua terra”.

Em minha opinião, um grande contador de histórias. Tinha um coração muito bom, gostava de ajudar sempre que possível e era um excelente músico. Tocava uma flauta doce quando o conheci e tinha muita habilidade com esse tipo de instrumento. Do que me lembro, viveu por algum tempo em uma cidade chamada Pedra Cortada, no reino de Rocha Branca.
Desde que chegou a cidade, procurou entender os costumes locais, dos quais, segundo ele mesmo afirmava, eram muito diferentes dos seus.

O relato mais intrigante de sua chegada estava ligado a um item, que segundo o próprio, tinha trazido de “sua terra” e que não existia por aqui. Um instrumento musical cujo nome não me arrisco a dizer, mas que produzia um som peculiar e quase impossível de ser reproduzido. Dourado e de tamanho razoável, logo atraiu a atenção dos guardas daquela cidade, que confiscaram o instrumento, sem maiores justificativas e o levaram para o rei. A história é tão estranha quanto à própria origem de nosso querido amigo Dudu, que não costumava mentir, mas fantasiava muito sobre a realidade.
Sempre disse que o quão antes fosse possível, iria até o rei e pediria por seu raro instrumento novamente. Ideia que mantinha fixa e que por vezes comentou, durante suas inspiradas e por vezes divertidas narrativas.

Como bom bardo que era não demorou a se instalar na cidade, mais especificamente, na taverna de Pedra Cortada. Com seu talento inegável, em pouco tempo ele caiu no gosto popular dos habitantes locais. Apresentações na cidade e nos vilarejos próximos começaram a lhe render, além de fama, um bom dinheiro. Não podia dizer que era rico, mas vivia em uma estalagem confortável, comia todos os dias, o que é algo um tanto difícil para a maioria dos irmãos de profissão, e tomava muitos banhos. Definitivamente, com uma frequência bem maior do que eu jamais me acostumaria.

Levava uma vida boa e tranquila, mas sentia que algo lhe faltava. Nós bardos, apesar de prezarmos muito por uma vida boêmia, possuímos um espírito saudoso e aventureiro, que em muitos, permanece adormecido por toda uma vida, mas não em Dudu. Seu ímpeto aventureiro foi despertado pelo mais antigo e clichê motivo que existe. Motivo este que move a humanidade e todos os povos por muitas eras, de uma modo que ninguém sabe explicar exatamente o como e o por que... Uma mulher.
Sim, nosso bardo teve despertado em si, um sentimento muito mais forte do que simplesmente o senso de justiça e de proteção do mais fraco. Algo que, sequer saberia explicar e que manteria guardado por muito tempo, o levou a agir.